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América Latina

O eterno loop boliviano

A ex-presidente da Bolívia, Jeanine Áñez foi presa. Ela é acusada dos crimes de “terrorismo, sedição e conspiração”. Áñez era senadora pelo Departamento de Beni e presidia o Senado quando assumiu interinamente a presidência, em novembro de 2019, depois que Evo Morales renunciou e fugiu do país.

Ela ficou quase um ano no poder. O previsto era que ela tivesse ficado metade tempo. Mas, na Bolívia não se organiza uma eleição presidencial em seis meses, ainda mais com a eclosão da pandemia de coronavírus.

Áñez foi ficando e se afundando com seu país. Uma Bolívia econômica quebrada por Evo Morales e uma sociedade convulsionada pelas fraturas políticas, pobreza crescente e corrupção. Alguns dos membros do gabinete interino não perderam tempo e meteram a mão nos escassos recursos públicos do país.

Para recordar os antecedentes da ascensão e prisão de Áñez é preciso se lembrar que, em 2016, Evo Morales submeteu o seu desejo de se eternizar na presidência a um referendo popular. Perdeu, mas não aceitou a derrota. Alegou ser um “direito humano” disputar eleições quantas vezes uma pessoa desejar. Em 2019, ele tentou seu quarto mandato consecutivo.

O processo eleitoral se deu em meio a protestos e a descoberta de que seu partido, o MAS (Movimento ao Socialismo), havia promovido uma fraude massiva, milhares de bolivianos foram às ruas para exigir novas eleições. Morales tentou partir para a guerra. Colocou suas milícias cocaleiras nas ruas, incentivou o cerco a cidades inteiras e a pancadaria.

Mas, em algum momento alguém fez os cálculos. Acho (apenas acho) que o narcotráfico – que é a principal força econômica da Bolívia – percebeu que uma guerra civil ou qualquer coisa que se assemelhasse à baderna que Evo Morales queria promover afetaria dramaticamente os negócios.

Então, Morales tentou engabelar. Assumiu que não tinha vencido no primeiro turno. Aceitou disputar um segundo. Mas já era tarde. Então pegou seus aliados mais próximos, viajou para o epicentro da produção de cocaína no país, o Chapare, e de lá embarcou para o autoexílio. Uma bela sacada, pois com a ajuda de uns militares gordinhos que ficaram escondidos, enquanto o povo protestava, ele conseguiu construir a narrativa de que havia sofrido um golpe de Estado.

A OEA atestou que a eleição havia sido roubada, mas Morales seguiu se fazendo de vítima. Um ano depois, seu aliado Luis Arce venceu. Em quatro meses de governo colocou em prática o plano de vingança. Mandou não só Áñez para cadeia, como quase todo o seu gabinete ministerial.

O script é o de sempre. Em 2009, Evo Morales denunciou um suposto intento de golpe e massacrou a oposição. Matou uns, prendeu outros e forçou a fuga para o exílio de vários outros. Os departamentos “rebeldes” de Santa Cruz, Beni e Pando foram subjugados e, por mais bizarro que possa parecer, recolonizados. O governo central iniciou um intenso programa de “reforma agrária” enviando os apoiadores originários do altiplano para redesenhar o perfil étnico-eleitoral das regiões onde não tinha maioria. É a Bolívia.

A foto que se vê acima é do distrito policial. A mulher à direita é Áñez. Ao centro uma máquina de escrever operacional. Um mobiliário que lembra caixotes de frutas. Se não fossem as máscaras e o frasco de álcool em gel, daria para pensar se tratar de uma imagem de um passado distante. Mas esta é a Bolívia do presente e seu eterno loop.

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