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Brasil

O chavismo à brasileira

A crise que devorou a Venezuela não começou da noite para o dia. Seus primeiros passos foram silenciosos. Antes da fome, violência generalizada e a criminalização do próprio Estado veio a corrosão institucional. A implosão do país se deu por meio de ações travestidas de democráticas e com a recorrente manipulação das regras em favor do regime em construção.

Hugo Chávez mudou o que queria no meio do caminho em nome de um projeto de país. Mas sem contar para ninguém que “o país”, no caso, era ele mesmo. Encomendar uma nova Constituição à sua imagem e semelhança foi a base de sua perpetuação no poder.

Chávez se via como um presidente eterno. Se não fosse a barbeiragem dos médicos cubanas que diagnosticaram mal e operaram pior ainda o câncer do presidente venezuelano, ele ainda estaria entre nós.

Ainda refuto a ideia de que o Brasil pode se tornar uma Venezuela. Seja pela versão amedrontada da direita. Seja pela gaiatice de usar o xingamento bolsochavismo como sinônimo de fenômeno político-militar.

O Brasil é institucionalmente mais robusto e politicamente mais complexo. O mal falado Centrão, por exemplo, foi o arreio que por meio do fisiologismo e outros vícios domou a besta petista. Na Bolívia, por exemplo, Evo Morales replicou o chavismo em todos os níveis sem nenhum obstáculo.

Não faltou vontade ao PT de replicar no Brasil o modelo chavista. Não são poucos os membros do partido que já reconheceram o fracasso de não terem podido fazer a revolução aos moldes venezuelanos. Mas o PT e seus aliados fracassaram.

O mesmo freio se aplica a qualquer tentação que possa vir de outra direção.

Há quem compare Jair Bolsonaro a Hugo Chávez. Um dos balizadores é curioso. Militares no poder. Ex-militar, Chávez se cercou de homens fardados. Mas o uniforme não faz o militar.

Apesar do visual e das patentes, eles eram e são, antes de tudo, chefes de máfias. Comandantes de rotas de tráfico de drogas, ouro e extorsão. Chávez sabia que o caminho para destruição institucional do país também passava a destruição da cultura militar.

Pavimentou o caminho da cleptocracia venezuelana por meio dos quartéis.

Não há simetria que permita comparações entre o papel das Forças Armadas Bolivarianas com as do Brasil.

Falta de paralelo na relação com a imprensa. Por lá, o ditador venezuelano mandou prender profissionais, expropriar e fechar veículos de comunicação. No Brasil, ser detrator (para usar um termo que entrou na moda) no presidente virou caminho para fama e insumo para os negócios.

Melhor que bater no presidente e esperar a reação. Cada vez que ele faz isso dá uma força tremenda para as empresas de comunicação. Aumenta a audiência e vende assinatura.

Bolsonaro reage muito mal ao noticiário. Mas não há chavismo algum na rinha diária com a imprensa. O que parece, vendo bem de longe, é uma falta total de serenidade e até de esperteza.

A boina de Chávez, que para muitos é invisível sobre a cabeça do presidente, parece pairar em outro lado da Praça dos Três Poderes.

Nos próximos dias, o Supremo Tribunal Federal julgará se Rodrigo Maia poderá se candidatar para o seu quarto mandato consecutivo como presidente da Câmara dos Deputados.

Rodrigo Maria: ele quer a reeleições ilimitadas para presidente da Câmara

Recentemente, Maia se posicionou contra a tentação de alguns pares que propõe uma nova Assembleia Constituinte. Mas o mesmo Maia, que viu a flagrante ruptura democrática no artifício chavista, tem se esforçado a cada dois anos para mudar as regras em seu favor. Algo bem chavista.

Em 2016, ele foi eleito em uma eleição extraordinária para substituir Eduardo Cunha que havia renunciado engolfado pelos escândalos de corrução investigados pela Lava-Jato. Sete meses depois brigou na Justiça para ter o direito a disputar a reeleição.

A lei é transparente não é permitida a reeleição do presidente da Câmara. Mas Maia convenceu seus pares e julgadores que o mandato anterior era um “tampão” e que, portanto, não valia. Maia, então foi reeleito em 2017.

Em 2019, ele deveria passar o bastão, mas… Recorreu à justiça novamente. A desculpa. Era uma nova legislatura. Portanto, a possível reeleição não se daria no mesmo dentro do mesmo período de mandato parlamentar. Por meio de liminar foi candidato e venceu.

Agora Maia quer derrubar de forma definitiva a barreira que limita a reeleição. Os prognósticos indicam que ele deve conseguir.

Maia é chavista. Não. Assim como Bolsonaro também não é. Mas o plano de Maia de mudar as regras para poder seguir dando as cartas no Congresso é de um chavismo sem igual. É de longe, no Brasil, o que mais se assemelha às estripulias do líder venezuelano.

O deputado do DEM não planeja revolução alguma. Tampouco uma reengenharia do mundo, como Chávez se via predestinado a fazer com a força do dinheiro do petróleo e da cocaína.

Mas Maia tem testado os limites da Democracia. Desde 2016, cada dois anos, ele alista o Supremo seu plano pessoal e gradual de poder. Para ele tem sido uma maravilha. Mas é esse tipo de coisa que faz o sistema se liquefazer.

Assim como as geleiras árticas, a Democracia vai derretendo de forma quase imperceptível até que um momento se rompe e se transforma em um iceberg à deriva.

O Brasil não é a Venezuela, mas não falta quem se esforce para fazer o país parecer com a terra de Chávez.

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