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Brasil

O voto eletrônico está envelhecendo mal

O Brasil completou vinte anos de eleições totalmente eletrônicas. A festa foi ofuscada pela invasão das redes do Superior Tribunal Eleitoral e pela pane nos sistemas de apuração das eleições municipais. Os dois eventos podem ser os sinais de que um dos objetos do ufanismo brasileiro está envelhecendo. E mal.

As investigações indicam que um garoto de 19 anos, munido apenas com um celular e em prisão domiciliar, em Portugal, foi capaz de quebrar a segurança do TSE. Caso as suspeitas sejam confirmadas, a invasão hacker, com recursos tão básicos, revelará que a fortaleza erguida em torno do nosso sistema eleitoral pode ser de areia. As autoridades garantem que os dados eleitorais ficaram intactos.

As eleições deste ano também foram marcadas por serem aquelas com urnas mais velhas em operação. No último 15 de novembro, a Justiça Eleitoral empregou 473.503 unidades. O modelo mais recente era de 2015. As mais surradas são empregadas desde 2009. Ou seja, os equipamentos disponibilizados pelo TSE tinham entre cinco e onze anos de uso, conforme está descrito no relatório preliminar da Missão de Observação Eleitoral da OEA.

Não é correto comparar urnas eletrônicas com telefones celulares. Mas é algo útil para entender um problema potencial.

Quando algumas das urnas eletrônicas usadas no Brasil foram produzidas em 2009, a Apple lançava no mercado o iPhone 3GS, então com 32 gigabyte de memória e uma incrível câmera com 3 megapixel de resolução.

Passados onze anos, o aparelho é uma peça de museu. Tem uma capacidade de processamento 22 menor quando comparada com a do modelo mais recente e não seria capaz sequer de baixar o aplicativo de mensagens WhatsApp.

O TSE fez atualizações recentes no software instalado nas urnas.

Mas para “rodar” qualquer programa precisa levar em conta os limites de hardware. Por isso que a Apple deixou de produzir atualizações para os telefones produzidos até 2015. As novas versões de software não conversam mais com a máquina de cinco anos atrás.

Feitas as comparações indevidas, mas didáticas, toda e qualquer atualização que as urnas eletrônicas brasileiras receberam têm que considerar as características físicas dos equipamentos. E o envelhecimento do sistema não pode ser medido pelas urnas mais novas. Aquelas, produzidas em 2015.

Como o software é um só, ele precisa ser construído para funcionar nas urnas de 2009. Ou seja, todas as urnas têm que ser pensadas como se tivessem onze anos de idade.

Quais são os problemas envolvidos? Eu não sou capaz de listar todos, mas suspeito de alguns. Obrigado a nivelar por baixo as capacidades do software para encaixá-lo em máquinas tão antigas, parece ser inevitável ao TSE abrir mão de ferramentas modernas que não funcionam mais com corpo “medieval” (tratando-se de tecnologia) de urnas com mais de uma década em operação.

Um resultado possível é a impossibilidade, por exemplo, de instalação das mais modernas ferramentas de criptografia.

A pane, a invasão hacker e o atraso inédito na divulgação dos resultados são algumas das peças às quais se juntam agora o sucateamento das urnas eletrônicas.

O TSE informou que que já licitou 180.000 novos equipamentos e já tem encomendadas 54.000 unidades para 2022 – o equivalente a cerca de 11% total empregado no pleito de 2020. As demais urnas dependerão de orçamento para serem efetivamente compradas.

O sistema eleitoral eletrônico brasileiro envelheceu. E envelheceu mal.

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