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Estados Unidos

Washington e Welch: duas (e não únicas) faces da América

Welch, cidade com pouco mais de 1.500 habitantes no sul do Estado de West Virginia, ganhou fama em 2016 e foi apresentada ao mundo como o resumo da América que elegeu Donald Trump. Em uma das cidades mais pobres dos Estados Unidos, três em cada quatro eleitores votaram no republicano. A pequenina Welch foi um caso extremado que tornou fácil demais a tarefa de explicar os esquecidos que elegeram Trump.

A cidade, que experimentou tempos de glória, em um passado movido a carvão mineral, chegou em 2016 em um nível acelerado de decréscimo populacional. Seus habitantes fugiam (e ainda fogem) dos resultados da debacle econômica.

Nesta semana, o jornal argentino Clarin esteve em Welch para descrever o ambiente local. Retornou, na verdade. Este lá há quatro anos e apresenta um comparativo interessante. O lugar segue sendo um poço de problemas, mas as pequenas mudanças que se deram no últimos anos foram suficientes para estimular o povo. A correspondente cita um cidadão que aposta que desta vez Welch vai fechar com Trump.

Welch é tão fim do fundo que até a covid-19 não chegou lá com a mesma vontade destrutiva que se instalou em Nova York, por exemplo. No condado de McDowell, formado por Welch e mais nove cidades ainda menores, foram registrados 100 casos da doença e ninguém morreu.

O maior reduto trumpista da América é tão desfavorecido que a renda média das famílias brancos locais está abaixo da renda familiar dos negros em Washington, D.C.. Segundo o censo americano, formam a camada mais desfavorecida da capital.

A eleição de 2016, por sinal, colocou Welch e Washington em pontos extremos. Enquanto a falida cidade carvoeira de West Virginia emergiu como o maior reduto de Trump, Washington, D.C. se consolidou como o centro do maior bolsão de voto democrata dos Estados Unidos. Simplesmente 93% dos eleitores da capital americana votaram em Hillary Clinton naquele ano.

Diametralmente oposta, Washington é uma das cidades mais caras para se viver nos Estados Unidos. Tem elevado nível de renda e educação e a maioria de sua população é negra contrastando com a pequena Welch que se vê minguando e tem 35,5% de seus moradores vivendo na pobreza.

Diversa na sua composição étnica e favorecida em todos os indicadores sociais possíveis. Mas quando o assunto é política, a capital americana chega a ser mais monolítica que a caipira Welch. Nenhum lugar nos Estados Unidos, com as características metropolitanas, tem opinião tão uniforme quanto na capital. Desde que votaram pala primeira vez para presidente em 1964, os washingtonianos nunca deixaram de dar vitórias para os democratas com porcentagens de fazer inveja a Trump em seu reduto Welch.

Em uma coluna na Gazeta do Povo conto como essa visão sem muitos contrastes dos Estados Unidos pode ser um filtro nas lentes pelas quais o mundo enxerga a América e a disputa atual.

Embora Washington seja uma ilha de prosperidade democrata, não é necessário viajar 5 horas para o sul para encontrar o elo perdido republicano de Welch. A realidade americana está bem mais perto. Está nas franjas de D.C., Manhattan ou San Francisco – as três maiores bolhas democratas – onde vive e trabalha quem conta para o mundo o que são os Estados Unidos.

Se Biden não vencer a eleição como todo mundo está dizendo, pode ter certeza. Mais uma vez, vão buscar a explicação nos lares dos esquisitões da América e Welch vai virar matéria.

Se as pesquisas se confirmarem e Trump deixar a Casa Branca, as respostas certamente não irão muito além de das várias welchs que continuaram lá. Bem longe. Intencionalmente esquecidas.

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