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Irã

Política e religião: a dissimulação como arma contra o Ocidente

Um membro do Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica que estava infiltrado em Washington, D.C. tortura e mata a sua filha adolescente por ela o ter desonrado com seus hábitos ocidentais. O crime acabou por expor os seus vínculos com o regime terrorista dos aiatolás. O extremista perde o emprego em uma empresa que presta serviços, veja só, para órgãos de inteligência dos Estados Unidos. De volta a Teerã, o iraniano culpa um ex-colega, que ele acredita ser quem acionou a polícia expondo toda a conspiração. E assim começa o thriller político-religioso Infidel (Infiel, 2020), que há uma semana está em exibição nos Estados Unidos.

Como parte da vingança pela exposição de um agente que tinha uma posição privilegiada na rede de espionagem do Irã, em Washington, as Forças Quds – o braço de elite das do exército iraniano e que opera no exterior – fica responsável pela armadilha.

A receita da vingança é a mais perfeita descrição dos métodos de atuação do Irã e seus operadores. A dissimulação é a alma do negócio. É tão bem feita que enganou muitos resenhistas. A religião é apenas uma cortina de fumaça que os iranianos para desaparecer na trama.

Aproveitando-se de que Doug Rawlins (personagem vivido por Jim Caviezel) é um blogueiro católico, os iranianos usam seus contatos no Egito para atraí-lo para uma conferência na qual ele falaria do cristianismo. Rawlins cria polêmica ao defender o que os iraniano saberiam o que defenderia. Que Jesus não é só um profeta, como pregam um muçulmanos, mas sim Deus. Um misto de choque e ofensa para plateia islâmica sunita (vertente rival dos xiitas do Irã).

Depois de voltar para o seu hotel Rawlins é sequestrado e os esforços de sua mulher, uma funcionária do Departamento de Estado dos Estados Unidos, para encontrá-lo dão o tom para história marcadamente cheia de clichês.

Voltando à armadilha. Os brutamontes que espancam e sequestram Rawlins são militantes do Hezbollah. A milícia xiita libanesa que faz a maior parte das operações clandestina e sujas do Irã no Exterior. Eles são autores de uma série de atentados terroristas indicados pelos aiatolás entre os quais o contra a Amia, em Buenos Aires, no qual foram 85 mortas, em 1994.

A conferência religiosa foi ardilosamente pensada para fazer parecer que se tratava de uma ato de intolerância sunita, contra um cristão enviado ao martírio. Mas a razão oculta, infelizmente não muito clara no filme, é o plano das Forças Qods com o Hezbollah para eliminar um inimigo desviando sempre a culpa para outros, ou deixando sempre “no ar” a dúvida.

Como ora finge ser um partido político, ora se mimetiza de organização filantrópica, o Hezbollah não quer estampar em sua testa o selo jihadista que organizações sunitas como al Qaeda e o Estado Islâmico. O mesmo se aplica à teocracia iraniana que sempre se vende como vítima do Ocidente e do grande satã, os Estados Unidos.

O Hezbollah e Irã se fazem de injustiçados nos crimes que lhe são atribuídos, mas jamais recusam os elogios dos amigos por os terem cometido. Sempre foi assim. O caso mais recente, o assassinato do procurador federal Alberto Nisman, em 2015, é um deles.

O filme mergulha no ativismo da cristofobia quando, na trama, fica pública a participação do Irã no sequestro. O aspecto político sai de cena e entra a versão das minorias cristãs no Irã e como o regime mantém presos políticos e de fé.

Quando a religião se sobrepõe ao caráter político estratégico, o filme cai na armadilha que eles tentavam denunciar. O roteiro que pretendia denunciar as trapaças das Forças Qods e do Hezbollah parece começar a acreditar que a fé de personagem principal era a razão de sua prisão.

Infidel é uma tentativa boa e necessária para o público em geral possa se inteirar de como opera o regime iraniano. Reuniu atores profissionais e produção de alto padrão para filmes de baixo orçamento.

Mas o faltou ao filme um pouco mais de densidade e foco no que realmente importa. Para o Irã, seus aiatolás e seus terroristas espalhados pelo mundo, religião é um meio e não o fim.

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