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China

Enchentes, secas, gafanhotos e a fome na China

No início do ano, uma praga de gafanhotos que infestou centenas que quilômetros quadrados na Índia e Paquistão era considerada uma ameaça remota para China. O regime chinês reforçava o discurso de que o risco de infestação no país era mínimo. Mas, não demorou muito para Pequim mudar a narrativa e tratar como real um problema que se revelou vital para os chineses.

A devastação provocada pelos insetos dos insetos coincidiu com dois fenômenos climáticos, que juntos, atingiram em cheio as principais regiões agrícola na China. Enchentes torrenciais no sul do país e seca severa no norte.

Os eventos climáticos combinados agravaram o já precária segurança alimentar chinesa. Segundo um relatório da Academia Chinesa de Ciências Sociais, sem considerar as perdas deste ano, a China já teria nos próximos cinco anos um déficit no fornecimento doméstico de grãos da ordem de 130 milhões de toneladas. A China, reconhece o próprio governo, padece de uma crescente dependência de importações para alimentar a população.

Em resumo: o país mais populoso do mundo está vivendo sob a crise de desabastecimento de alimentos. Algo potencialmente explosivo, pois pode colocar em xeque a estabilidade que o Partido Comunista Chinês impõe por meio da força.

Na semana passada o presidente Xi Jinping lançou um esforço nacional contra o desperdício de comida. Chamada de “Prato limpo”, a campanha tem como objetivo reduzir o consumo pelo melhor aproveitamento. Sem assumir que o país não tem estoques de alimentos suficientes para os seus 1,4 bilhão de habitantes, Xi promove uma espécie de racionamento de comida.

Os efeitos colaterais da redução da produção local de alimentos podem ser medidos dentro e fora da China. Internamente, os preços da carne suína, por exemplo, subiram de 86% nos supermercados chineses. Em média, os alimentos estão 10% mais caros para uma população que tem uma renda média da população é de menos de um terço a de um brasileiro.

O colapso da produção agrícola na China é a explicação porque o país avançou tão vorazmente sobre a produção de alimentos na América do Sul. Argentina e Brasil são os países que viram o crescimento da participação chinesa em suas balanças comerciais durante a epidemia de coronavírus, enquanto a maioria dos países passaram a comprar menos.

Espertamente, Pequim fez parecer que o crescimento é resultado direto da saúde da economia chinesa. Manobra que tem funcionado já que a maioria dos analistas sequer triscaram no que pode ser a causa do avanço chinês sobre a produção agrícola brasileira.

Em silêncio, para não pressionar os preços, a China tem manobrado a situação de forma a garantir um combo de vitórias. 1) Esconde do mundo a sua fragilidade estratégica — aquela de denúncia que em uma relação comercial de mão-dupla ela é mais dependente do Brasil que o Brasil dela. 2) Sem fazer alarde que a comida a comida acabou por lá está importando alimentos mais do que nunca sem que esse movimento impacte nos preços que lhe são cobrados. 3) Aumenta o seu poder de pressão sobre os países provedores, pois ao ampliar o seu peso nas exportações cria a imagem de que sem a China é o cliente que não pode ser incomodado.

Não se sabe até quando Xi Jinping conseguirá esconder a gravidade da crise alimentar na China, quanto ela durará e qual será o impacto político e social das catástrofes que se abateram sobre o país. O que a história ensina e Xi sabe muito bem é que a fome pode ser um inimigo interno poderoso.

Xi Jinping não está trabalhando apenas para alimentar os chineses. Xi está lutando para que o regime hoje comandado por ele não morra de inanição.

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